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Julio Maria
Jornalista Cultural | Biógrafo | Crítico Musical | Músico
Terça-feira, 14 de abril de 2026
João Marcello estuda processar Cesar Camargo Mariano
Filho de Elis diz que ex-marido da cantora prejudica legado e afirma: ‘Não lanço mais álbuns que tenham ele na ficha técnica’
Nova audição será feita para aprimorar o relançamento de Elis 73/ Foto: Arquivo pessoal JMB

O produtor João Marcello Bôscoli estuda responder judicialmente às investidas que o músico Cesar Camargo Mariano fez contra o relançamento do álbum Elis 73. João contratou um dos escritórios advocatícios mais renomados da América Latina para fazer uma análise do caso. O filho de Elis Regina entende que o homem que a cantora teve a seu lado como marido e arranjador por quase dez anos, pai de dois de seus filhos, causa prejuízos morais e materiais ao legado de Elis.
Depois de ter exposto em sua conta no Instagram uma indignação pelo lançamento da remasterização do álbum Elis, de 73, afirmando que João e o engenheiro de som Ricardo Camera “jogaram no lixo” o projeto original do disco, Cesar contratou a advogada Deborah Sztajnberg, respeitada e conhecida por aceitar casos difíceis no meio artístico (o mais notório é sua defesa do biógrafo Paulo Cesar de Araújo contra o cantor Roberto Carlos, em 2009, que não queria uma biografia feita por alguém não autorizado), para dar os primeiros passos na tribunalização da história.
A gravadora Universal, responsável pela obra da cantora, foi notificada extrajudicialmente em nome de Cesar. Ele reclama que, como um dos arranjadores do disco, deveria ter sido consultado antes das intervenções. E aponta os pontos que o desagradaram, como o surgimento de duas guitarras sobrepostas na música Doente Morena, o uso de um instrumento de percussão (tímpano) que não havia sido aproveitado na gravação original de Caçador de Esmeraldas e o corte do artigo “a” na frase “a possibilidade de ir pro Japão” da música Oriente. “Essas questões, para mim, não são passíveis de alterações por terceiros”, escreveu Cesar.
João responde dizendo que Cesar não é o único arranjador do disco, que o trabalho original não foi jogado fora, já que o álbum lançado em 1973 segue nas plataformas, e que a família de Elis (João e os irmãos Pedro Mariano e Maria Rita) não precisa pedir autorização sobre os lançamentos a respeito da obra da mãe ao pianista porque ele não é herdeiro da cantora.
Pedro Mariano, que faz a supervisão dos vocais no projeto de remasterização, respondeu ao pai também pelas redes sociais: “Se um projeto da Elis está no ar foi porque nós, os herdeiros, aprovamos. Isso é ponto pacífico”, escreveu em seu Instagram.
João já coloca um dos pés no tribunal por entender que, além dos desgastes sofridos pela família com o caso Elis 73, as atitudes de Cesar devem trazer prejuízos aos trabalhos feitos pela família para manter o nome de Elis presente. Ele mesmo, João, afirma ao repórter que decidiu não mais lançar álbuns de Elis que tenham o nome de Cesar Mariano na ficha técnica. “Só vou relançar discos de 1971 pra baixo. Cansei.”
Assim como a “ameaça Roberto Carlos” trancou as editoras de livros, que passaram a resistir ao lançamento de biografias não autorizadas de 2006 até 2015, quando uma decisão do STF as liberou sem restrições, um “efeito Cesar Mariano”, mesmo sem base legal, pode retrair artistas, gravadoras, músicos, cantores, editoras e outros agentes da indústria cultural que queiram produzir obras como álbuns, filmes, documentários e livros a respeito de Elis e seus trabalhos feitos ao lado do pianista (de 1972 a 1980). Em outras palavras, Cesar Camargo Mariano pode se tornar um fantasma.
A notificação extrajudicial deve provocar uma reunião entre as partes (Universal e Cesar) e o que sairá dela vai significar muito para o meio artístico. As opções são: um acordo com dinheiro pago pela Universal como espécie de indenização a Cesar e garantia de que caso morra ali, a retirada do álbum das plataformas, alterações no álbum para agradar a Cesar, os três ou nada. O fato é que, até aqui, já há ineditismos dignos de entrarem para a biografia de alguns envolvidos. E eles não são bonitos.
O primeiro é a o ato em si. Pela primeira vez um produto de feitio autorizado pelos filhos de Elis Regina (João, Pedro e Maria Rita) sofre uma ameaça de ação judicial movida por Cesar, pai biológico de dois deles (Pedro e Maria Rita) e, por um tempo, afetivo de um (João Marcello).
A advogada Deborah Sztajnberg diz que o alvo não são os filhos, mas a gravadora Universal, que, segundo ela, deveria ter pedido autorização a Cesar antes de entregar o álbum para João Marcello mexer. João responde que tal afirmação não tem base legal pelo fato de Cesar não ter nenhum direito sobre os fonogramas de sua mãe. O que os fãs de Elis e de Cesar leem, no entanto, é uma notícia que não sai do código penal: um pai está entrando na Justiça contra os próprios filhos. Os filhos de Elis Regina.
O segundo ponto inédito é sobre o entendimento dos direitos autorais dos arranjadores. Se o que Cesar reclama faz sentido (a violação da integridade moral de seus arranjos), ele terá um segundo problema: não há na lei sobre direitos autorais do País nenhum artigo direto que conceda aos arranjadores o poder de veto ou autorização às regravações de uma obra. Jamais um arranjador ganhou qualquer processo parecido.
Eis uma bela discussão secundária que poderia vir à tona em outro momento. Apesar de sua importância incontornável na elaboração de um álbum ou de um disco, os arranjadores sequer recebem dinheiro do que é arrecadado como direitos conexos das execuções de música no País, como recebem os intérpretes e os músicos executantes.
Álbum vai passar por ajustes
João Marcello diz ao repórter que vai fazer uma audição apurada da remasterização de Elis 73 ao lado de Pedro Mariano e do engenheiro Ricardo Camera para fazer ajustes em detalhes que podem ser melhorados. “Sempre fazemos audições posteriores para melhorar o que pode ter passado, é de praxe”. Ele afirma que esse procedimento não é uma resposta às contestações de Cesar. “Não vamos fazer nada pautados por ele.”
Em seu manifesto, Cesar Mariano rechaçou pontos que identificou como “questões não passíveis de alterações por terceiros”. Ele pontuou quatro faixas. Para ele, o samba É Com Esse Que Eu Vou teve “o track do teclado RMI arrastado e antecipado em quatro compassos”. Quis dizer que o final da música foi antecipado um pouco, terminando antes.
Em Doente Morena, de Gilberto Gil, fala que “há agora duas guitarras fazendo um duelo atrapalhado, tirando o lirismo e a singeleza da interpretação.” A audição mostra duas guitarras sobrepostas, mais presentes do que na gravação original.
Em Oriente, diz Mariano, há um corte súbito na voz no início da frase “a possibilidade de ir pro Japão.” De fato, Elis não canta o “a”, como faz no álbum original. Já entra em “possibilidade de ir pro Japão”.
E finaliza dizendo que Caçador de Esmeraldas tem uma percussão exagerada e que foi incluído um tímpano que, a princípio, era para ser apenas um detalhe no arranjo, mas que foi abandonado. “Decidi tirar porque ficava pesado demais”.
Das modificações que podem ser feitas agora, João adianta que o “a” dito por Elis em Oriente deve ser revisto. “Talvez ele tenha passado a soar mais baixo porque limpamos os ruídos que havia no original. Podemos fazê-lo soar melhor agora, aumentando o volume desse ‘a’”. Já as duas guitarras tocadas em Doente Morena, que desagradaram a Cesar, devem permanecer como estão na remasterização.
Julio Maria